Resenhas

[Resenha] Carta de Amor aos Mortos – Ava Dellaira

09/04/2019

Olá, boa tarde leitores!

Aguardei ansiosamente pelo fim de semana, mal podia esperar para finalmente ler os títulos que reservei na biblioteca. Decidi começar por Carta de Amor aos Mortos, de Ava Dellaira. Um livro que já conhecia de nome e que sempre me intrigou pela sinopse.

Editora: Seguinte

Páginas: 344

Tradução: Alyne Azuma

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Trecho

Sinopse:

Prestes a começar o ensino médio, Laurel decide mudar de escola para não ter que encarar as pessoas comentando sobre a morte de sua irmã mais velha, May. A rotina no novo colégio não está fácil, e, para completar, a professora de inglês passa uma tarefa nada usual: escrever uma carta para alguém que já morreu. Laurel começa a escrever em seu caderno várias mensagens para Kurt Cobain, Janis Joplin, Amy Winehouse, Elizabeth Bishop… sem nunca entregá-las à professora.
Nessas cartas, ela analisa a história de cada uma dessas personalidades e tenta desvendar os mistérios que envolvem suas mortes. Ao mesmo tempo, conta sua própria vida, como as amizades no novo colégio e seu primeiro amor: um garoto misterioso chamado Sky.
Mas Laurel não pode escapar de seu passado. Só quando ela escrever a verdade sobre o que se passou com ela e com a irmã é que poderá aceitar o que aconteceu e perdoar May e a si mesma. E só quando enxergar a irmã como realmente era – encantadora e incrível, mas imperfeita como qualquer um – é que poderá seguir em frente e descobrir seu próprio caminho.

06/04/2019 11:21

O livro é escrito no formato de cartas. Laurel perdeu a irmã há pouco tempo e para conseguir lidar com tal fato ela prossegue com a escrita de cartas para pessoas que já faleceram, ideia esta sugerida no primeiro dia de aula, um exercício dado pela professora, como se de alguma forma pudessem ouvir e compreendê-la.

“Eu gostaria que você pudesse me dizer onde está agora. Sei que está morta, mas acho que tem alguma coisa da gente que não desaparece simplesmente. Está escuro lá fora. E você está lá. Em algum lugar. Eu te deixaria entrar aqui.”

✉️

“— Sabe, acho que, quando você perde alguma coisa próxima, é como perder a si mesmo.”

Ao iniciar o ensino médio em uma nova escola, a jovem aproveita a oportunidade para tentar recomeçar. Depois do falecimento de sua irmã, a mãe de Laurel decide passar um tempo na Califórnia e devido a isso, as semanas  da filha são alternadas entre ficar na casa da tia Amy e do pai. Inicialmente a estudante se mantém quieta, como se fosse invisível e pouco a pouco começa a se enturmar, não somente tem amigas como posteriormente um namorado.

Sky se mostra misterioso, pouco sabem sobre seu passado e seus olhares intensos deixam Laurel apreensiva, curiosa e atraída. A única informação que conhecem é que o jovem foi expulso da escola anterior.

Laurel vive em meio ao presente e passado, ora recorda de situações vividas enquanto os pais ainda estavam juntos, sua irmã viva e ora o que vive atualmente, a angústia, dificuldade de se encontrar e mais, de tentar superar.

A personagem se sente insegura, perdida, pensa que seguir o estilo e o comportamento da irmã vão lhe proporcionar momentos bons e que será aceita pelas pessoas, não acredita que ser ela mesma possa ser interessante, tanto que acaba utilizando as roupas de May várias e várias vezes e em diversas situações age de acordo com o que a irmã possivelmente faria.

“— Sabe, docinho, existem duas coisas importantes no mundo: estar em perigo e ser salvo.
Pensei em May por um instante. E perguntei:
— Você acha que corremos perigo de propósito, para sermos salvos?
— Sim, às vezes. Mas às vezes o lobo desce da montanha, sem que você tenha pedido. Você só estava tentando cochilar no sopé da colina.
— Mas, se essas são as coisas importantes, onde se apaixonar se encaixa?
— Sabe por que se apaixonar é o que pode acontecer de mais profundo com uma pessoa? Porque quando estamos apaixonados, estamos totalmente em perigo e completamente salvos, os dois ao mesmo tempo.”

07/04/2019 14:02

“Talvez estar apaixonada seja assim. A coisa vai se acumulando,
mas nunca parece cheia, só mais feliz.”

✉️

“— Sabe quando você acha que conhece alguém? Mais do que qualquer
um no mundo? Você sabe que entende a pessoa, porque a enxerga de
verdade. E então você tenta se aproximar, e ela… desaparece. Você achava
que pertenciam uma à outra. Achava que ela era sua, mas não é. Você quer
protegê-la, mas não pode.”

✉️

“Às vezes nosso corpo devia mostrar
mais as coisas que nos machucam, as histórias que mantemos escondidas
dentro de nós.”

As cartas estão apresentando um teor cada vez mais sentimental, as palavras atingem o leitor de uma maneira que o faz se identificar, seja por experiência vivida, próxima ou até mesmo visto em notícias da internet. A sensação de impotência perante uma pessoa que quer tirar a vida é imensa, a dor é quase física, você começa a jogar um jogo onde o prêmio é uma vida salva. Convencer alguém que deseja acabar com o sofrimento vivido que tal ato não é a melhor solução é um desafio. Mostrar que há saídas e que ela é importante é um trabalho árduo que se não controlado pode acabar te transformando em um jogador com o mesmo intuito.

Lemos histórias de famosos e até mesmo pessoas que moram na mesma cidade que já fizeram isso, agora quando você se vê diante uma situação que envolve um amigo, é primeiramente aterrorizante, porque o que passa pela cabeça é que se algo acontecer a culpa será sua, porque você não ajudou, você “deixou” isso acontecer e depois de já ter presenciado alguns casos eu posso dizer com vivência que não, a culpa não é sua, não é da pessoa, não há culpados e em segundo lugar, a pessoa que está passando por esse momento e está te contando ela está indiretamente pedindo ajuda, pode até insistir que não precisa de ajuda profissional, mas precisa sim, pois somente um profissional saberá como prosseguir de forma adequada e auxiliar com uma chance maior de êxito, pois também devemos pensar que a pessoa tem que querer se ajudar, no mínimo aquele 1% que está aprisionado tem que querer fugir da cela de depressão e tormentos. A libertação somente poderá ocorrer em conjunto, pois quantas vezes construímos celas que nem sequer estão trancadas, apenas com a porta encostada, não é mesmo!?

07/04/2019 18:57

Dizem que o tempo cura tudo, se cura realmente não sei, só sei que ampara e contribui para recomeços!

Terminei a leitura e que história! Laurel sofre uma perda de forma inesperada e forte. A cada novo capítulo, uma nova carta escrita, remetentes como Kurt, Judy, Elizabeth, Amelia, River, Janis, Jim, Amy, Heath, Allan, E. E. e John, têm suas histórias contadas brevemente e “ouvem” os desabafos da jovem. No caso da personagem, o problema nem consiste em não saber superar a morte da irmã, mas sim a intercalação de se sentir culpada e compreender o porquê dela ter feito o que fez. Esses questionamentos não deixam o seu coração quieto. Muitas vezes achamos que ao ter respostas a dor vai passar, mas isso não é verdade, as coisas acontecem e temos que aceitar e avançar. Infelizmente nós humanos tentamos achar desculpas para as atitudes e isso somente causa mais inquietude e falar é simples, na teoria tudo é mais simples, agora na prática, ai ai ai. Outro ponto importante de ser mencionado é que quando uma pessoa comete um suicídio, ela já não está mais ali, está vivendo uma outra realidade, não acredito que seja algo decidido de momento, portanto, não se sinta culpado assim como Laurel chegou a se sentir.

Pessoas nascem, pessoas adoecem, pessoas morrem, pessoas casam, pessoas viajam, pessoas estudam, pessoas trabalham, pessoas superam…

Além do suicídio, é abordado também o relacionamento homossexual, consumo exacerbado de drogas e bebidas alcoólicas e abuso. Uma escrita fluida e com um assunto necessário, não canso de mencionar o quão importante é falar sobre tais assuntos. Penso que quanto mais conversarmos, mais poderemos ajudar.

Para finalizar, quero comentar que inicialmente eu não sabia se realmente tinha gostado do livro, fiquei achando que havia faltado algo, como se eu estivesse esperando uma grande revelação e depois de pensar, dar uma pausa e refletir compreendi que não existiria isso e sabe por quê? Porque estamos falando de sentimentos e uma dor que nasce e se desenvolve de forma cruel e que se multiplica rapidamente. Superar é mais do que uma palavra de sete letras, é ter o seu tempo, unificar as ideias, aprender a respirar cautelosamente, chorar o que for necessário e se for, nem todo mundo sente a necessidade e se expressa, alivia desta forma, não é algo que possa ser “resolvido” de forma direta e rápida. A partir do momento que concretizei essa concepção, os detalhes discutidos durante todo o enredo foram se reunindo e percebi o quão complexa é a emoção sentida ao ler a história!

Se eu indico esse livro? Absolutamente!

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Boa leitura, beijos!